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Jesus’ pantyfans
Somos o que cremos, somos o que cantamos também. Se cantamos só a nós, mergulhamos em nada além de nós. Ao invés de seguidores de Jesus hoje somos Jesus’ pantyfans. Somos ‘adoradores’ ousados, exagerados, aparente- mente por Jesus, mas no fundo em bus
Fui ver a casinha do Marinélio atendendo a um pedido de Esequiel, meu cunhado casado com minha irmã mais nova Cibele. Eles foram da JOCUM durante vários anos, e agora têm sua própria ONG que trabalha com crianças de periferia, a Casa do Pai. Cibele e Zeca criam sete filhos, dois biológicos e mais cinco adotivos com as histórias mais diversas. Lembro-me quando a mais velha Isabelle foi adotada por eles ainda noivos. A bebê de um ano não reagia a palmas, a vozes nem a sorrisos de tão desnutrida e solitária. O Zeca brincava triste que ela era sua filha super-deitada. Hoje com quinze anos Isabelle cursa o segundo ano do ensino médio e quer ser psicóloga. Beatriz, a segunda, foi recebida com um ano coberta de feridas dos pés à cabeça, canta bem e ama dançar. Cada uma das cinco filhas tem uma história de milagre e amor.
-Bráulia você não sabe o barraco horrível em que o Marinélio mora.
Fui ver. Acompanhou-me o Rubens que tem um sonho de construir casas populares por cinco mil reais. Olhamos o pardieiro e nos chocamos. Frestas enormes na parede, dois cômodos mal divididos, terreno pantanoso, banheiro com uma fossa coberta por madeiras podres quase desabando, uma cozinha escura no fundo. Conheço o Marinélio há tempos, mas nunca o ouvi queixar-se. Agora sem graça ele me conta sua história. Com vinte e cinco anos e a esposa vinte e seis com aparência de treze, são missionários de tempo integral na Casa do Pai que conhecem desde sempre, foram resgatados da miséria e desesperança da favela onde cresceram pelo trabalho do Zeca e da Cibele. Hoje têm dois filhos de seis e três anos e se dedicam ao trabalho social. São crianças salvando crianças. Marinélio entende de políticas públicas, representa o estado nas conferências do governo, abre a boca pelas crianças e jovens da periferia, trabalha duro como professor do programa socio-educativo, é representante, gerente, faz-tudo, braço-direito de Esequiel. Entre uma oferta e outra vivem com um pouco mais que um salário mínimo.
O Rubens ri comigo que nem a casa da velhinha viúva que ele derrubou para lhe construir uma nova era tão ruim. Planejamos a construção, eu já sonho como Luciano Huck, quero arrumar até mobília para o casal, porque só vejo pano em todo lugar e caixotes. Pobre sempre tem pano e caixote. O Rubens pensa nas paredes, no telhado, na terraplanagem do terreno.
-Vai ser bacana, em duas semanas tá pronto. O Marinélio não acredita, chora, sua esposa Alessandra também. Voltamos pra casa no carrinho capenga do Rubens fazendo planos e felizes. Não temos ainda nem os cinco mil nem os parceiros, mas já conseguimos ver a casa pronta. A sensação de bliss espiritual é tanta que nem precisamos de música pra dançar. Estamos em plena adoração. Como dizem os estudiosos do metabolismo humano ‘a generosidade produz sérias endorfinas’.
Já faz um tempo que briguei com as reuniões de adoração evangélicas. Me sento em protesto nauseado todas as vezes que as músicas desfilam um corolário interminável de “Eus” e “Meus” . Fiz uma análise textual das “dez mais” da adoração aqui na base e nas igrejas que visitamos, provando gramaticalmente, semanticamente, sem sombra de dúvidas (penso eu) que o centro gravitacional de todas elas é sempre EU e nunca Deus, apesar de parecerem tão piedosas. Mostrei (também penso eu) de maneira inequívoca que a divindade adorada por estas canções pseudo-evangélicas não é o Senhor dos Exércitos, mas um deus subserviente cuja única preocupação real é deixar o adorador feliz, realizado, num estado de extâse orgásmico. Nada mais. Este deus não lhe requer nada, não lhe diz nada, não lhe mostra outra realidade, não chama o adorador para fora de seu Eu-narcísico. Não lhe mostra o pobre, a guerra, a dor, o amor do outro. Se contenta em acalentar-lhe o ego e se sente apaziguado quando ouve repetidas vezes elogios pobres à sua capacidade infinita de tornar o adorador indiferente e feliz.
Somos o que cremos, somos o que cantamos também. Se cantamos só a nós, mergulhamos em nada além de nós. Ao invés de seguidores de Jesus hoje somos Jesus’ pantyfans, verbete internético não pejorativo que se refere a fãs que jogam calcinhas em palcos. Somos ‘adoradores’ ousados, exagerados, aparentemente por Jesus, mas no fundo em busca apenas do êxtase individual nada mais. Cantamos até atingirmos o nirvana evangélico do nada além de meu budista, gordo e satisfeito.
A turma do Zeca e do Marinélio se reúne domingo à noite no pátio emprestado por uma escola pública do bairro onde moram. São jovens adolescentes e crianças, a maioria que passou ou ainda freqüenta o sócio-educativo Casa do Pai. Durante o louvor dançam hip-hop e capoeira no chão, e cantam, sim cantam muito. Cantam entusiasmados louvores com letras bíblicas que os chamam ao auto-sacrifício pelo serviço cristão e que dizem que somos d’Ele, não é Ele que é nosso.
Bráulia Inês Ribeiro
está na Amazônia há 25 anos como missionária, é presidente nacional da JOCUM(Jovens Com Uma Missão) e autora do livro Chamado Radical (Editora Atos)
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