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E Darwin chorou
“A ignorância pode ser douta, e os bem-aventurados, simples”
Até parece que Deus precisa de advogado. Ao contrário – se nosso Redentor já faz a mediação dessa engenharia espiritual céus-terra, ele é naturalmente o nosso grande defensor.
Os novos hunos lutam para destruir a fé. No contraponto, temos – infelizmente – uma teologia dominante frágil e inconsistente. Os incréus avançam e atacam, como se fossem um novo Golias, que não encontra pela frente Davi e as pedras do conhecimento. O exército israelita conhecia a si mesmo e tremia de medo. Já o jovem Davi também conhecia a si mesmo, mas tinha total confiança no Senhor.
O incréu e néscio Richard Dawkins, biólogo professor da Universidade de Oxford, na Inglaterra, está na praça com o best-seller Deus, um delírio. Sustenta que acreditar em Deus é delirante, coisa de ignorantes e estúpidos. Diz isso e faz questão se apresentar como cientista, desenhando o seu próprio figurino, como se fosse um ser superior – e nós, um bando de idiotas. A teologia dominante faz de conta que a ofensa não é com ela. Isola-se no mais pesado dos silêncios, angustiando os que clamam e anseiam por um contraponto inteligente.
Na página 80 do seu delírio, o autor faz uma escala de um a sete para hierarquizar o saber dentro da perspectiva inicial de crer em Deus até chegar ao extremo da sua completa negação. O autor se coloca sobre um muro acadêmico: sexta posição, com tendência para a sétima... E escreve: “Probabilidade muito baixa, mas que não chega a ser zero”. Portanto, o ilustre doutor fala, a rigor, numa hipótese de delírio, o que anula o título da sua própria obra.
Da farta bibliografia citada, não consta H. Poincaré (La Science et l’Hipothèse), que aproveito para mencionar e esgrimar com Dawkins: “A ciência é feita de fatos, como uma casa é feita de pedras, mas uma acumulação de fatos não constitui uma ciência, como uma de pedras não faz uma casa”. Percebi claramente que Dawkins se apóia numa série de exemplos de teologia precária (e desfila uma série de episódios lamentáveis), no que tem toda razão em criticar. Mas Deus não tem nada a ver com a fragilidade do conhecimento humano. (“A glória de Deus é encobrir as coisas, mas a glória dos reis é esquadrinhá-las” – Provérbios 25.1). E nem seria Deus se precisasse de Dawkins para explicá-lo.
O ateu militante não é intelectualmente superior a nós. E nós não somos seres inferiores porque praticamos a fé cristã. A ignorância pode ser douta, e os bem-aventurados, simples. Charles Darwin teve uma mostra recente no Museu de Arte de São Paulo. Antes de publicar o famoso A origem das espécies, em 1859, sua mulher, Emma, escreveu-lhe uma carta respeitosa e carinhosa: “Que o hábito do conceito científico de em nada acreditar até que seja provado não influencie muito também a sua mente em outras coisas que não podem ser comprovadas da mesma maneira e que, se realmente verdadeiras, provavelmente estarão acima de nossa compreensão”. Darwin manteve suas posições. Mas escreveu ao lado do texto da mulher: “Quando eu estiver morto, saiba que muitas vezes beijei e chorei sobre esta carta”.
Percival de Souza
é escritor, jornalista e membro do Conselho Diretor da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista
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