Epístola
da redação
O biólogo Richard Dawkins costuma contar uma história ocorrida em sua infância para ilustrar aquilo que considera ser sua missão. Ele diz que quando tinha nove anos, seu pai o ensinou a dobrar uma folha de papel de modo a fazer um origami de uma barcaça chinesa que, pronta, ficava totalmente navegável – ainda que numa banheira -, com lugar para carga, dois decks e vela redonda. Quando as aulas recomeçaram, o menino ensinou a seus colegas essa habilidade e, logo, as barcaças se tornaram uma verdadeira epidemia na escola, espalhando-se com a velocidade de um sarampo.
Hoje, passados tantos anos, o capelão do Diabo – título de um de seus livros mais polêmicos e expressão que usa para descrever aquele que duvida do sobrenatural – garante que é um homem sem fé. Mas não é verdade. Tal qual um fundamentalista religioso, Dawkins crê piamente que a guerra que está deflagrando contra Deus terá o mesmo sucesso que sua barcaça chinesa, mas desta vez em escala global. A julgar pelos termos que usa para descrever o Altíssimo em sua última obra – cruel, sanguinário, psicopata e pedófilo, só para citar alguns –, ele não está brincando. Os leitores religiosos que abrirem meu livro, terminarão como descrentes quando o terminarem, provoca.
Mas em um país como o Brasil, cujos ateus declarados limitam-se a 3% da população, tantas bravatas são motivo de preocupação? Afinal, é quase impossível pensar no país sem seu Cristo Redentor a abrir seus braços sobre a Cidade Maravilhosa. De fato, talvez a nossa preocupação seja diferente da dos europeus, onde o ateísmo cresce de modo impressionante. Mas que existe, existe. Isso porque, com a secularização e institucionalização atuais, o grupo que mais cresce no país é o dos sem-religião. E é inegável que a pregação de Dawkins e seus discípulos influenciam esse grupo. Tanto que já há quem chame aquele que tem uma religião apenas nominal de ateu prático.
Nesta edição, ECLÉSIA discute o assunto com profundidade, mas não se limita apenas a noticiar o fato. Afinal, a pergunta que não quer calar é o que a Igreja tem feito diante de tudo isso? ou o que tem deixado de fazer, para a situação chegar a esse ponto?. Não há uma resposta simples. Para que possa especular sobre o assunto, será preciso dar uma passada pela entrevista de David Botelho, que fala sobre a falta de compromisso dos brasileiros para com missões. Pelas reportagens sobre a Universal e a Renascer, que oferecem um panorama do momento que atravessam duas das maiores denominações do país. Conhecer tanto o novo trabalho de evangelização sobre rodas dos motoqueiros e jipeiros de Cristo, quanto o antigo exemplo de um dos mais importantes teólogos do século passado: Karl Barth. Enfim, daqui até o artigo de Percival de Souza, que também trabalha brilhantemente o tema, a jornada promete ser de muita informação e reflexão.
Por isso, boa leitura... |